quarta-feira, 26 de abril de 2017

APÓSTOLOS E APÓSTOLAS. VERDADE BÍBLICA OU HERESIA?


As páginas da Escritura enfatizam a importância dos ministérios proféticos e apostólicos. O profeta do Antigo Testamento era uma autoridade oficial, representante de Deus diante do povo. Tal autoridade lhe era concedida mediante o chamado especifico e pessoal da parte do Senhor. Proclamação e predição eram características percebidas em todos os profetas.

Os Apóstolos, do mesmo modo, foram comissionados diretamente por Jesus. Isso Ele fez com doze de seus discípulos. Matias substituiu Judas, Paulo e Barnabé também eram Apóstolos. Eles serviam como embaixadores de Cristo, para proclamar, ensinar e registrar a boa-nova. Mas, nos dias de hoje, será que ainda estão vigentes os ministério Apostólico e Profético? É o que vamos analisar neste artigo.

Os títulos de pastores, presbíteros e diáconos parecem estar ultrapassados, no contexto evangélico de nosso tempo. Muitas igrejas, se não os abandonaram completamente, ao mesmo, os menosprezam.

A moda agora é ser Apóstolo, Paipóstolo, Profeta, querubim, etc. Não basta pregar, tem que profetizar, ainda que a profecia não tenha sentido lógico. Aliás, a profecia, por si só, também não adianta; precisa vir acompanhada dos chamados “atos proféticos”. Como assim? É o que veremos.

Os ministérios Apostólicos e Proféticos estão em vigor. Assim acreditam os adeptos da chamada Nova Reforma Apostólica, que culminou no movimento apostólico moderno, adotado por várias denominações neopentecostais. Esse movimento acredita que Deus irá restaurar o mundo, antes da segunda vinda de Jesus, dando aos crentes, prosperidade e curas, e promover essa restauração através das igrejas que estão sob o modelo Apostólico de governo.

Segundo os defensores da restauração Apostólica e Profética, os ministérios de Apóstolos e Profetas, criados em Efésios 4:11, foram perdidos, durante a existência da igreja; portanto, Deus está restaurando, nestes últimos dias, esses ministérios, concedendo a algumas pessoas, na igreja, o oficio de Apóstolo ou Profeta.
Atos 3:21 é usado para defender essa ideia. Eles afirmam que a restauração de todas as coisas, mencionada no texto, significa a restauração de apóstolos e profetas. Desse modo, essa passagem seria profética para o ressurgimento destes.
Isso, porém, não é tudo, o texto de I Coríntios 12:28 é utilizado para afirmar a vigência dos ministérios Apostólicos e Proféticos. Ele diz que Deus estabeleceu, na igreja; “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas”. De acordo com os defensores do movimento Apostólico moderno, nesse texto, Paulo não distingue os Apóstolos e os Profetas dos demais ministérios, mas coloca-os na mesma lista, logo, esses ministérios não cessaram.

Os defensores dos ministérios Apostólicos e Proféticos simpatizam, também com o chamado “Ato Profético”. Trata-se de uma ação envolta em simbologia, que, supostamente, traria ao mundo físico as realidades espirituais, ou seja, tudo aquilo que o cristão diz ou faz, tem repercussão no mundo espiritual. Assim demarcar territórios, ungir, objetos com óleo, tomar posse de algo que Deus prometeu aos crentes por herança são atos Proféticos.
Os defensores dessa prática utilizam como base textos bíblicos em que Deus ordena aos profetas, no Antigo Testamento, utilizar símbolos para transmitir a Sua mensagem. Os mais citados são o sangue aspergido nos umbrais das portas, na noite da décima praga do Egito (Êxodo 12), a pregação sem roupas de Isaias (Isaias 2:3-4), as setes voltas em torno de Jericó (Hebreus 11:30), a botija de barro quebrada diante do povo (Jeremias 19:1-11).
No Novo Testamento, (Atos 19:11-12) é, também, segundo os defensores do ato, uma prova de que essa prática é permitida: “E Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias. De sorte que até os lenços e aventais se levavam do seu corpo aos enfermos, e as enfermidades fugiam deles, e os espíritos malignos saíam”. Assim, a prática de utilizar lenços e aventais para a cura seria um ato profético.
Deus está restaurando os ministérios Apostólico e Profético em nossos dias? Claro que não! Isso porque, tal como os profetas, os apóstolos constituíram um grupo único e exclusivo na historia da igreja, e hoje, não existem mais.

Esses homens ajudaram a lançar os alicerces da igreja (Efésios 2:20), e uma vez que estavam prontos, deixaram de ser necessários. Atos 3:21 não favorece a restauração apostólica, pois se refere exclusivamente à volta de Jesus. A restauração, aqui, diz respeito à consumação do reino, a segunda vinda de Cristo.

Para ser Apóstolo, é necessário ter visto Jesus ressurreto e ser por ele comissionado (Atos 1:21-22). Logo, Paulo foi o último apóstolo, pois foi o último a ver Jesus (I Corintios 15:8). João Batista, por sua vez, foi o último a exercer o ministério Profético. Certamente, outros profetas são mencionados, após João Batista; contudo, não possuíam o mesmo oficio dos profetas do Antigo Testamento, por isso, o texto diz que a Lei os Profetas vigoram até João (Lucas 16:16)

Sabemos que para termos de organização administrativa faz-se necessária a instituição de líderes. Isso se dá em qualquer grupo de pessoas organizadas, desde um time de futebol que se reúne aos finais de semana até empresas multinacionais.
Até mesmo na família há princípios organizacionais. Deus instituiu o homem como o líder da família e não a mulher. Da mesma forma, a Igreja necessita de liderança e ordem para que haja harmonia e desta forma a Obra de Deus continue a fluir (1 Co 12.28).
Todavia, algo bastante discutido e tratado com indiferença por muitos é a questão do apostolado. É o título de Apóstolo para os nossos dias? A Bíblia Sagrada evidencia-nos três ofícios eclesiásticos: Apóstolo, Presbítero (Bispo, Ancião ou Pastor) e Diácono.
Durante os séculos podemos observar as várias aplicações do Governo Eclesiástico, com algumas denominações utilizando pastores, outras anciãos, bispos e outras ainda, entendem esses títulos hierarquicamente, enfim, divergindo de alguma forma no entendimento do modelo bíblico mais apropriado.
Entretanto, algo que obteve mais sucesso no consenso histórico é de que, o ofício apostólico não existe mais, ou seja, não houve sucessão apostólica.
Existem dois sentidos básicos para o termo “apóstolo”. De um modo mais geral, o termo se refere a qualquer pessoa que seja um enviado ou emissário de Deus através da Igreja para uma obra especial, seja de liderança ou não (Fl. 2:25). Esse significado provém da correlação entre o substantivo “apóstolo” (ἀπόστολος) e o verbo em grego que significa “enviar” (ἀποστέλλω). Nesse sentido mais geral, não há dificuldade em se aceitar que qualquer pessoa pode ser um apóstolo de Deus. Qualquer pessoa pode ser enviada, por exemplo, por uma igreja para o trabalho missionário, e, nesse sentido amplo, ela é um apóstolo de Deus. No Novo Testamento, porém, o sentido mais comum da palavra é o sentido técnico e restrito, se referindo a um grupo seleto dos apóstolos de Cristo. A palavra traduzida “apóstolo” (e suas derivações) é encontrada 80 vezes no texto grego do Novo Testamento (Nestle-Aland 27a. Ed.). Dessas, ela tem esse sentido restrito nada menos do que 73 vezes. O sentido mais amplo de “enviado” ocorre somente 5 vezes (Jo. 13:16; 2 Co. 8:23; Fl. 2:25; At. 14:4 e 14 são duas referências ambíguas); ela se refere uma vez a Jesus Cristo (Hb. 3:1); e, finalmente, há 3 ocorrências que apresentam dificuldades exegéticas, podendo ter tanto o sentido mais amplo como o mais técnico: Rm. 16:7; At. 14:4; 14.
No sentido mais amplo da palavra, isto é, enviado, podemos entender que qualquer pessoa pode ser enviada para uma missão. No sentido técnico da palavra, entendemos que o Apóstolo tinha uma autoridade diferenciada. Seus escritos eram considerados como inspirados, conforme vemos em passagens como 2 Pe 3.2; 1 Co 14,37; 1 Ts 2.13; 2 Pe 3.16. Os “Apóstolos” modernos teriam essa autoridade? Fariam parte do cânon bíblico escritos do Apóstolo Renê Terra Nova, Apóstola Valnice Milhomens, Apóstola Neuza Itioka?
Outra informação importante é quanto aos pré-requisitos necessários para que fosse levantado um apóstolo. Essa pessoa deveria ter sido testemunha ocular de Jesus Cristo ressurreto e ainda ter recebido tal comissionamento diretamente do Senhor Jesus.

O sucessor de Judas Iscariotes deveria ter essas qualificações, conforme está registrado em At 1.21,22. Depois da substituição de Judas por Matias, o último que pôde preencher tais requisitos foi Paulo (At 9.1-6; Gl 1.1; 1 Co 9.1; 15.7-9). Além disso, não há registro histórico de sucessão apostólica.

O movimento apostólico teve uma forte aparição a partir de 1980 e é dividido em pelo menos três grandes redes: carismática (neo-pentecostal), messiânica e judaizante. Em todas essas redes a ênfase em batalha espiritual é muito forte. O movimento apostólico ensina que cada apóstolo possui autoridade espiritual sobre territórios específicos. Um é apóstolo de Buenos Aires, outro é da Cidade do México, e assim por diante. É claro que o Brasil também já está loteado.

Pelo fato de enfatizarem bastante a batalha espiritual, doutrinas como a quebra de maldições e atos proféticos são comuns.
Podemos também afirmar que o termo Apóstolo foi banalizado e está sendo confundido, como se fosse um título profissional ou mesmo uma comenda honorífica. Será que esses homens ao menos executam o sentido mais amplo? Será que há uma preocupação missiológica? Minha dificuldade em aceitar o movimento apostólico dos nossos dias reside em que os ‘apóstolos’ modernos não viram Jesus ressuscitado, não foram designados pessoalmente pelo próprio Jesus, não realizam prodígios e sinais como na época do Novo Testamento e, ao contrário dos apóstolos do século I, se preocupam com a distribuição territorial. Minha conclusão é que tais pessoas declaram-se apóstolos, mas na verdade nunca o foram (2 Coríntios 11.13; Apocalipse 2.2).
Agora, se apesar das objeções que fizemos aqui, você ainda está pensando em seguir a profissão de apóstolo, é melhor se apressar. Infelizmente as áreas nobres já estão ocupadas. Mas ainda existem cidades menores sem dono. A propósito, parece que a Antártida ainda não tem apóstolo. Um continente inteiro à disposição! Alguém se candidata?
Uma vez que o ofício apostólico não possui embasamento bíblico para os dias de hoje, o que dizer então de Apóstolas? Renê Terra Nova diz que não vê problema para a consagração delas.
Algo que devemos ressaltar é que as mulheres do mundo oriental eram desprezadas, tratadas como seres inferiores, que não tinham direito à voz, à educação e nem sequer eram contadas quando se queria saber quanta “gente” havia, quando era feito o censo. Todavia, o que encontraremos com frequência na Bíblia são mulheres com o dom de profecia: Miriã (Ex 15:20), Débora (Jz 4:4), Hulda (2 Rs 22:14), Ana (Lc 2:36-38) e as 4 filhas de Felipe (At 21:9). Além disso, Evódia e Síntique em Fl 4:2-3 trabalhavam com Paulo, como cooperadoras, Priscila e seu marido Áquila são chamados também de cooperadores em Rm 16:3.
A mesma Débora era também juíza. Outra passagem interessante é a da mulher samaritana em Jo 4 27-29 que larga seu cântaro e vai à cidade anunciar o Cristo. Em Rm 16:12b Paulo também diz sobre Pérside, que muito trabalhou no Senhor.
O que enxergamos é que as mulheres cooperavam, isto é, ajudavam para que o Evangelho fosse propagado, mas não lhes era atribuído títulos. Baseado nessa ajuda que as mulheres tanto davam no Novo Testamento o título mais aceito hoje é o de missionária.
No caso do movimento G-12, o problema não é apenas a consagração de Apóstolos e Apóstolas, mas consagração automática das esposas de pastores para serem co-pastoras.

Ao mesmo tempo que Terra Nova não vê problemas para o ofício feminino, também não o vê para outros títulos ainda mais controvertidos. Ele mesmo foi ungido como “patriarca” em determinado Congresso da Visão Celular no Brasil. Não bastasse o título para ele mesmo, sua esposa também é reconhecida no MIR como “matriarca”.
Não é meu intuito aqui generalizar que os “apóstolos” modernos sejam todos falsos apóstolos (embora o sejam no sentido técnico da palavra), mas evidenciar biblicamente que esse ensino possui suas controvérsias e não encontra apoio nas Sagradas Escrituras.
Digo o mesmo acerca da questão matriarcal, não é intenção atingir o caráter de ninguém, pois até ouço boas referências de algumas pessoas.
Da mesma sorte, conhecemos muitos incrédulos que são mais honestos que diversos evangélicos, entretanto, o assunto que tratamos aqui é concernente a ensinos sem apoio bíblico. Embora muitos deles tenham seus corações sinceramente voltados para a Obra de Deus, não há necessidade e nem o direito de ultrapassarem o que já está escrito. Não precisamos aumentar e nem diminuir em nada o que está na Bíblia Sagrada, antes, devemos como bons bereanos, conferir se o que está sendo ensinado está em harmonia com a Palavra de Deus.
Portanto, a discussão mais importante nem é validade ou o fim de um título. Eu até creio que ainda temos apóstolos. Todavia eles não estão nos megatemplos neopentecostais, não pagam milhões de reais para virarem celebridade em horário nobre na tv, não desfilam em carros importados, não moram em mansões e nem se deslocam pelo mundo em jatos particulares. Os verdadeiros apóstolos estão embrenhados nas searas do anonimato, pregando o evangelho da salvação sem o menor desejo de obter aplauso ou reconhecimento. Para os verdadeiros apóstolos não importa serem considerados apóstolos, mas apenas exercerem o verdadeiro apostolado, vistos e legitimados apenas por Deus. São estes a quem Paulo se refere em Efésios 4:11 e não aos magnatas religiosos da atualidade.

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